
Craig Stecyk
Ao final dos anos 60, Venice Beach - Los Angeles era um bairro que fugia ao sonho americano. O cemitério de um antigo paraíso turístico era o cenário diário de quem vivia em Dogtown, região cercada pelos escombros de um antigo balneário. Habitada por famílias que não se enquadravam no padrão funcional, Dogtown criou uma geração um tanto peculiar.
A prática de surfe comum em toda Los Angeles tinha naquela região um significado completamente diferente. Os escombros dos antigos piers, tornavam o esporte muito mais perigoso do que o normal, arriscar a vida era parte integral do surfe e portanto havia um controle de quem tinha o direito de surfar. Era necessário provar-se competente, o que tornava motivo de orgulho surfar nas praias de Dogtown.
O comportamento transgressor era uma marca registrada, não havia limites para surfar, todo esse empenho fez de Dogtown uma cede para experimentos no desenvolvimento de pranchas. E a loja Zephyr se tornou uma cede para os que vieram a ser chamados Z-boys. A loja passou a ser uma espécie, pouco tradicional, de creche para as crianças que não tinham em casa figuras paternas muito presentes.
O skate era considerado nos EUA nesse momento, uma brincadeira de criança. Mas em dogtown era uma alternativa para a falta de ondas. Os garotos passaram a incorporar as manobras de surfe no Skate e criaram seu próprio estilo. A equipe Zephyr mostrou em sua primeira competição toda uma nova concepção de estilo, buscando a todo momento quebrar estigmas.
O documentário de Stacy Peralta, um dos principais Z-boys mostra como o skatimo em seu registro transgressor é uma forma de arte. O skatista passa a usar o ambiente de formas nunca antes imagináveis. Os Z-Boys foram os primeiros a tentar incorporar beleza ao movimento, antes, o esporte não passava de uma brincadeira de equilíbrio, em Dogtown ele busca o extremo através da fluidez do surfe.
A arte da prática do skate esta na capacidade de se adequar às adversidades. A seca nos EUA no começo dos anos 70 obrigou muitas piscinas de Los Angeles serem esvaziadas. Os Z-boys encontraram nas piscinas vazias a mímese da onda para o skate. Era comum invadir casas de bairros mais abastados para andar de Skate na piscina, a emoção era múltipla, a piscina proporcionava toda uma oportunidade de novos movimentos enquanto havia o perigo constante de ser pego invadindo e destruindo propriedade privada.
O documentário segue falando da popularização do esporte, de como os Z-boys deixaram o gheto e se tornaram famosos, como o impulso inicial da contra-cultura se perdeu com a comercialização da imagem de cada um deles. Mas aborda na individualidade de cada um, uma contribuição ao estilo e atribui à Dogtown a verdadeira criação do esporte.
O filme é composto por depoimentos atuais da maior parte dos Z-boys e por filmes e fotos da época. Um dos maiores colaboradores é Craig Stecyk que desde o principio documentava o skatismo em Dogtown. Craig se tornou um dos maiores jornalistas sobre o estilo, sendo capaz de abordar a essência do esporte através de imagens e palavras.
Stacy Peralta é com certeza a pessoa mais indicada para falar sobre o assunto, o mais empenhado dos Z-Boys, Stacy estava entre os melhores skatistas do grupo, mas sempre se interessou em tirar proveito maior do esporte, além da fama e do dinheiro. Stacy formou sua própria equipe e passou a filmar o esporte. Depois desse documentário ele ainda escreveu uma ficção baseada em sua história chamada “Os reis de Dogtown”. No entanto, todo estilo que Peralta tem em cima das rodas não corresponde ao seu domínio cinematográfico.
O filme tem uma linguagem videoclíptica onde as imagens são mostradas rapidamente, numa tentativa falha de demonstrar a radicalidade do esporte simbolicamente. Ele se torna muito indutivo e didático pela trilha sonora e pela narração, até melodramático em alguns momentos. Mas o assunto fala por si só, sua beleza é evidente. E o didatismo algumas vezes se faz necessário, pois não se pode esperar do espectador entender todos os desafios ultrapassados em cada manobra.
No entanto a abordagem antropológica é simples e muito eficiente. Os Z-boys não são vitimisados por sua origem simples e pela infância marginal. Assuntos como drogas são tratados com muita naturalidade, porque assim se passava no dia a dia em Dogtown.
O documentário é bastante esclarecedor sobre essa vertente da contra cultura dos anos 70 e é capaz de explicar para o público leigo, com o devido distanciamento histórico, sua porção poética.
Nenhum comentário:
Postar um comentário