
“Quando eu vi
Que a festa estava encerrada
E não restava mais nada
De felicidade
Vinguei-me nas cordas
Da lira de um trovador
Condenando o teu amor
Tudo acabado”
(trecho de “Divina dama”, de Cartola)
O filme inicia com a câmera trêmula, a expressão inconsolada em preto-e-branco das pessoas ao redor do caixão coberto pelas bandeiras do Flamengo e da Mangueira misturadas a cenas do filme “Brás Cubas”, de Júlio Bressane, e a voz de Cartola narrando sua própria história.
A idéia dos diretores Lírio Ferreira e Hilton Lacerda era apresentar uma narrativa diferente, um documentário não somente biográfico, mas que contasse a história do país, ou pelo menos, uma parte dela, da qual fez parte um dos maiores representantes da cultura popular brasileira. O filme é inteiro fragmentado, possui uma linha cronológica não-linear e constrói a trajetória do sambista, narrada por ele, de forma irregular, com imagens que transitam entre o real e a ficção. Os fragmentos concedem uma cadência ao filme, que se torna metalingüístico, pois fala do samba, mais do que qualquer outra coisa.
O diretor Lírio Ferreira, de “Árido Movie”, trabalha novamente ao lado de Hilton Lacerda, roteirista de “Amarelo Manga”, “Baixio das Bestas”, entre outros. Este é o primeiro longa de Hilton, que estréia na direção com um trabalho completamente autoral.
O filme transpõe o limite entre gêneros, já que mescla cenas documentais e ficcionais, alternando o tempo todo sua linguagem cinematográfica. “Cartola” está longe de ter um olhar naturalista; as imagens são por vezes desconexas, mas convergem numa narrativa permeada por insinuações políticas, embora bem sutis, e por situações mais abrangentes do que a mera ilustração da vida do personagem.
Segundo Hilton Lacerda, as imagens ficcionais foram criadas “para dar clima ao filme e para preencher espaços vazios”. A intenção era fazer uma reconstrução afetiva da história do personagem, mais do que ser fiel à cronologia dos acontecimentos. Os depoimentos, ao contrário das imagens mais “poéticas”, são enquadradas de forma tradicional, apenas cumprindo sua função narradora.
O filme possui apenas um problema: a tentativa de desmistificação do personagem acaba sendo prejudicada pelo detalhamento exacerbado de sua personalidade e acaba por cair no mito novamente. Apesar disso, o filme não falha em salientar a importância de Cartola na nossa formação cultural, através da diversidade mostrada na tela.
A narrativa se divide em duas partes: a juventude de Cartola e os primeiros passos do samba no Rio de Janeiro, a vida boêmia do compositor, a formação da Mangueira e os depoimentos daqueles que conheceram e se relacionaram com Cartola. A segunda parte mostra o período conturbado do personagem (transformado em imagem através de uma tela negra que aparece em determinados momentos), que teve como ápice o afastamento da Mangueira. A seqüência inicial mostra o enterro do compositor, ao som de “Divina Dama”, cantada por ele; a opção pela narrativa póstuma provém da coincidência cronológica: Cartola nasce no dia em que morre Machado de Assis, também pobre, também carioca, também uma das maiores influências culturais brasileiras. Cartola morre e leva com ele o samba, que jamais foi representado com maior simplicidade e excelência. Talvez seja por isso que um filme sobre um personagem cuja grandeza não pode ser contida na tela exija de nós um olhar diferente.
CARTOLA
Direção e roteiro: Lírio Ferreira e Hilton Lacerda
Direção de Fotografia: Aloysio Raulino
Montagem: Mair Tavares, Rodrigo Lima e Lessandro Sócrates
País: Brasil
Idioma: Português
Gênero: Documentário
Tempo de duração: 88’
Ano de lançamento: 2006
Estúdio/Distribuidora: Europa Filmes
Elenco: Cartola, Nelson Motta, Nelson Sargento, Marcos Paulo Simão
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