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oão Jardim estudou cinema na Faculdade da Cidade e na Universidade de Nova York, iniciou sua atuação profissional como técnico de edição na área de publicidade e na rede Globo. Nesta dirigiu Engraçadinha, fez assistência de direção para diversos longas, e na área dos documentários participou como editor de diversos filmes dirigidos por Walter Salles. Janela da Alma é sua estréia como diretor de longa metragem para o cinema.
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alter Carvalho começou sua carreia no cinema como assistente nos filmes do próprio irmão, o documentarista Vladimir Carvalho. Sua formação de fotografo abriu caminho também para a fotografia no cinema, área na qual a partir de Boi de Prata se estabeleceu como um respeitado profissional da área. Trabalhou com propaganda e também passou pela rede globo. Fotografou diversos longas como Terra Estrangeira, Central do Brasil, Abriu despedaçado e lavoura arcaica.
“O olho abraça a beleza do mundo inteiro. É janela do corpo, por onde a alma especula e frui a beleza do mundo. O que há de admirável no olho é que através dele – de um espaço tão reduzido – seja possível a absorção das imagens do universo. De sorte que esse órgão – um entre tantos – é a janela da alma, o espelho do mundo” como disse certa vez Leonardo da Vinci, frase que não só inspirou o nome do documentário, como é premissa que fundamenta o filme. Este apresenta diversas opiniões sobre o ato de olhar. E nos leva a conhecer diversos personagens com as mais diversas condições visuais. São 19 entrevistados: do cineasta Wim Wenders ao escritor José Saramago, da miopia à cegueira. Cada qual nos apresenta sua forma peculiar de ver e não ver.
Os entrevistados são apresentados por uma pequena legenda, e logo começam a expressar suas experiências com o ver. O filme consiste nessas diversas entrevistas que são entre cortadas por diversas experimentações visuais, e mesmo as entrevistas em si passam diversas vezes de focadas, para desfocadas e retornam a serem focadas.
A fotografia é um dos pontos altos do longa, sendo ela especialmente explorada pelos autores em seus experimentos visuais. A cada quadro, a cada seqüência desfocada essa característica se faz presente, o que torna mais vivido o discurso de cada entrevistado e mais clara a intenção dos diretores.
A trilha sonora é simples, e cumpre um papel também básico de consolidar sensações, sem em momento nenhum ser o condutor da ação ou idéia, ou emoção sugerida, sempre dando espaço para as imagens conduzirem todo o tipo de mensagem do filme, estas que são as verdadeira “atrizes principais” conduzem o espectador por todo o trajeto proposto.
As entrevistas se entrecortam, se retomam e se ligam umas as outras formando um rede de teorias, vivências e sensações únicas sobre o olhar, desde a experiência bem sucedida de paquera do músico Hermeto Paschoal, as explanações de Saramago sobre a caverna de Platão.
E do cotidiano, Jardim e Carvalho nos leva por saborosos questionamentos filosóficos que são embasados pelas imagens, cortes e enquadramentos e como poucos na filmografia brasileira trazem a tona questões caras a ciência e a filosofia ocidental. A realidade do visível, a validade desse sentido como meio de revelar o real, e mesmo questões fisiológicas do funcionamento do olho.
A abordagem também flerta com a psicologia, quando a cineasta Marjut Rimminen fala de sua formação e comenta suas criações obscuras. O filme fala do trauma, mas também da exemplos de convivência com a visão limitada ou adulterada menos pesadas como é o caso do músico Hermeto Paschoal, que logo no inicio comenta sua visão como sendo “muito rica”.
A intenção dos autores, que se desenha durante todo o longa sem se impor ao expectador, talvez seja a demonstração de como o ver é um habito cultural, e que é condicionado, e depende da vivencia. Talvez o filme “soe” como um grito de libertação para formas alternativas de ver, de ser visto e de vivenciar a experiência visual.
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